Amboni, VanderleiOliveira, Alexsandro Araújo2026-05-182026-05-182026-05-182025-03-30https://repositorio.unespar.edu.br/handle/123456789/984Este trabalho parte de uma premissa fundamental: a memória não é um arquivo morto, um depósito de lembranças intactas à espera de serem resgatadas. Ela é, antes de tudo, um processo vivo, dinâmico e essencialmente político, um fluxo constante que se transforma ao circular entre sujeitos, tempos, suportes e contextos. É essa caracterização que buscamos capturar com a noção de memória em trânsito, ferramenta conceitual que desenvolvemos ao longo da pesquisa. Para mostrar seu potencial analítico, foram estudados sete documentários para compreender como as lembranças do período ditatorial brasileiro se movimentam, se reinventam e ganham (ou perdem) potência de intervenção no presente. Os sete documentários aqui analisados não foram escolhidos apenas por tratarem da ditadura militar sob diferentes enfoques, mas porque ajudam a pensar e a consolidar a própria noção de memória em trânsito. São eles: Que Bom Te Ver Viva (Lúcia Murat), Procura-se Irenice (Marco Escrivão e Thiago Mendonça), Retratos de Identificação (Anita Leandro), Testemunhos da Tortura: Ditadura Militar em Belo Horizonte (Catherine Dias Rodrigues), Hércules 56 (Silvio Da-Rin), Chapeleiros (Adrian Cooper) e O Chapéu do Meu Avô (Julia Zakia). Cada um, a seu modo, revela como as lembranças se deslocam no tempo, se reconfiguram no encontro com novos públicos e se transformam em campo de disputa simbólica. São obras que não apenas registram memórias, mas as colocam em circulação, fazendo do cinema um espaço privilegiado para observar o trânsito memorial em ação. Ademais, a reunião dessas obras se justifica justamente por compartilharem um traço comum fundamental: a articulação entre memória e violência de Estado no contexto da ditadura instaurada em 1964, mas, mais do que isso, por fazerem dessa articulação um dispositivo de ativação política. O eixo memória–ditadura–testemunho que as organiza se desdobra em pontos de convergência, como a utilização de arquivos como material de confrontação e a recusa do esquecimento como imperativo ético. O que procuramos demonstrar é que a potência da memória não está em sua pretensa fidelidade ao passado, mas em sua capacidade de se mover, de se conectar com novos presentes, de ser narrada e compartilhada. Caso contrário, ela se apaga, desaparece e morre. Como principal contribuição da pesquisa, a noção de memória em trânsito desloca o foco da História Pública da simples transmissão de conteúdos para a análise das condições de circulação do passado, isto é, quem pode narrar, o que pode ser visto e quais memórias são legitimadas ou silenciadas. A noção, neste sentido, atua como crítica à cristalização de narrativas históricas. Em vez de promover consensos ou versões pacificadas do passado, ela enfatiza o conflito e a pluralidade. Assim, a História Pública torna-se um campo de disputa contínua de sentidos, no qual o passado é constantemente (re)avaliado. Em relação à autoridade compartilhada, a memória em trânsito desloca o debate, no que a autoridade sobre o passado não é vista como algo simplesmente distribuído entre historiadores e públicos, mas um efeito instável de disputas e condições de visibilidade, indicando que mesmo em práticas colaborativas persistem assimetrias e conflitos. A noção permite (re)interpretar as quatro dimensões da História Pública (para, com, pelo e em relação ao público) como posições móveis dentro de um campo de circulação e disputa e não como categorias fixas.Ditadura; Memória; Memória em trânsito; Documentário.Narrar para existir: memórias em trânsito em documentários sobre a ditadura (1964-1985)DissertaçãoHistória